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CINCO POEMAS BRASILEIROS SOBRE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL




Mencionaremos sobre 5 poemas brasileiros que retratam um momento turbulento da nossa história: a SEGUNDA GUERRA MUNDIAL.




5 -  ABGAR RENAULT com UBI TROJA EST: esse poema conta sobre a invasão nazista na Inglaterra, refletindo sobre consequências da tentativa de “reduzir” tal país.

Aqui é Londres London Londinium, a velha, a cinzenta, a misteriosa.
Aqui é Londres, que Adolf Hitler ia reduzir.
Onde está Adolf Hitler? – Aqui é Londres.

Compreendo os teus olhos cheios de mar,
a tua poesia de um reflexivo silêncio de velas,
a tristeza seca dos teus poetas,
quando vejo o teu céu sempre noturno, teus jardins de bruma,
tua umidade espessa a subir das águas antigas,
a correr sob pontes intemporais e andando pelas ruas;
as tuas luzes (ye lights of London town)
embaçadas de suor, de fumaça e restos de bombardeio,
e o tempo sem memória que escorre dos telhados e das paredes
e se espalha pelos bancos das praças e pelas mesas dos hotéis.
Sei o que é o teu gênio, a tua força, a tua alegria cativa,
e a tua melancolia que não chora, e entendo o orgulho dos teus homens e das tuas mulheres
de pouca fala e olhos cheios de branda, misteriosa luz;
amos os porquês da tua língua viajeira, múltipla e uma,
carregada de praias alvas, de remotas músicas,
feita de água salgada, de verde relva,
de luar e sol ocultos, de ouro, carvão e névoas frias.

Compreendo-te, Ó Tróia indestruída, e amo-te,
e longe de ti, sobre o mar que te criou e dominaste,
sinto vultos vagando pelas ruas do meu pensamento:
Chaucer, Shakespeare, Dr. Johnson, Donne, Berkeley, Keats...
Tuas árvores graves, teus demônios, teus anjos, teu coração de aço
os rostos de distâncias do sonho e da realidade que criaste.





4 – MURILO MENDES com A CEIA SINISTRA: Mendes indaga a questão da pós-guerra e como que a Rússia se empoderou, como o que também aconteceu com os Estados Unidos. Lembrando que os empoderamentos dos dois países levarão à Guerra Fria.
1
Sentamo -nos à mesa servida por um braço de mar.
Eis a hora propiciatória, augusta,
A hora de alimentar os fantasmas,
? Quem vem lá, montado num trator de cadáveres,
Com uma grande espada para plantar no peito da Rússia.
Outros estendem bandeiras de todos os países,
Fazem uma cortina de névoa que esconde o cavaleiro andante:
O homem morre sem ainda saber quem é.
A morte coletiva apodera-se da morte de cada um.
A terra chove suor e sangue,
As ondas mugem.
2
O tanque comanda o homem.
A alma oprimida soluça
Num ângulo do terror.
Alma antiquíssima e nova,
? Tua melodia onde está.
O pássaro, a fonte, a flauta,
A estrela , o gado manso te esperam
Para os batizares de novo.
Sentados à mesa circular
Aguardamos o sopro do dia.
3
Os mortos perturbarão a festa inútil.
? Quem lhes trouxe ternura e presentes – em vida.
? Quem lhes inspirou pensamentos e amores castos – em vida.
? Quem lhes arrancava das mãos as espadas e o fuzil – em vida.
Agora eles não precisam mais do carinho ou de flores.
Agora eles estão libertos, vivos
Pisando calmos sobre nossas covas.
Abancados à vasta mesa circular
Comemos o que roubamos aos mortos conhecidos e anônimos.




3 – CECÍLIA MEIRELES com PISTOIA – Cemitério Militar Brasileiro: este poema de Meireles não foca na questão das batalhas da Segunda Guerra Mundial, mas às consequências da guerra para às famílias.

Eles vieram felizes, como
para grande jogos atléticos:
com um largo sorriso no rosto,
com forte esperança no peito,
– porque eram jovens e eram belos.

Marte, porém, soprava fogo
por estes campos e estes ares.
E agora estão na calma terra,
sob estas cruzes e estas flores,
cercados por montanhas suaves.

São como um grupo de meninos
num dormitório sossegado,
com lençóis de nuvens imensas,
e um longo sono sem suspiros,
de profundíssimo cansaço.

Suas armas foram partidas
ao mesmo tempo que seu corpo.
E, se acaso sua alma existe,
com melancolia recorda
o entusiasmo de cada morto.

Este cemitério tão puro
é um dormitório de meninos:
e as mães de muito longe chamam,
entre as mil cortinas do tempo,
cheias de lágrimas, seus filhos.

Chamam por seus nomes, escritos
nas placas destas cruzes brancas.
Mas, com seus ouvidos quebrados,
com seus lábios gastos de morte,
que hão de responder estas crianças?

E as mães esperam que ainda acordem,
como foram, fortes e belos,
depois deste rude exercício,
desta metralha e deste sangue,
destes falsos jogos atléticos.

Entretanto, céu, terra, flores,
é tudo horizontal silêncio.
O que foi chaga, é seiva e aroma,
– do que foi sonho, não se sabe –

e a dor anda longe, no vento...



2 – CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE com CARTA A STALINGRADO: o poeta cultua o evento que ocorreu em Stalingrado, antiga cidade de Rússia que foi cenário da primeira vez que os nazistas perderam essa batalha. Após Stalingrado, a Alemanha Nazista começou a entrar em declínio

Stalingrado...
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrirmos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto)
 [estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.

Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.

Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!
A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.
As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.


1 – VINÍCIUS DE MORAES com A ROSA DE HIROSHIMA: é o poema mais conhecido sobre a Segunda Guerra Mundial, no Brasil, e reflete sobre a bomba atômica americana que foi lançada em Hiroshima, Japão.

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.




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