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CINCO POETAS BRASILEIROS QUE VOCÊ PRECISA CONHECER


5 CORA CORALINA – Escritora regionalista que tratava sobre o campo, recordações da infância, simplicidade da vida e Goiás, a cidade que ela tanto amava. Leia o poema “Minha cidade”:

Goiás, minha cidade...
Eu sou aquela amorosa
de tuas ruas estreitas,
curtas,
indecisas,
entrando,
saindo
uma das outras.
Eu sou aquela menina feia da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.
Eu sou aquela mulher
que ficou velha,
esquecida,
nos teus larguinhos e nos teus becos tristes,
contando estórias,
fazendo adivinhação.
Cantando teu passado.
Cantando teu futuro.
Eu vivo nas tuas igrejas
e sobrados
e telhados
e paredes.
Eu sou aquele teu velho muro
verde de avencas
onde se debruça
um antigo jasmineiro,
cheiroso
na ruinha pobre e suja.
Eu sou estas casas
encostadas
cochichando umas com as outras.
Eu sou a ramada
dessas árvores,
sem nome e sem valia,
sem flores e sem frutos,
de que gostam
a gente cansada e os pássaros vadios.
Eu sou o caule
dessas trepadeiras sem classe,
nascidas na frincha das pedras:
Bravias.
Renitentes.
Indomáveis.
Cortadas.
Maltratadas.
Pisadas.
E renascendo.
Eu sou a dureza desses morros,
revestidos,
enflorados,
lascados a machado,
lanhados, lacerados.
Queimados pelo fogo.
Pastados.
Calcinados
e renascidos.
Minha vida,
meus sentidos,
minha estética,
todas as virações
de minha sensibilidade de mulher,
têm, aqui, suas raízes.
Eu sou a menina feia
da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.

4 MURILO MENDES – Um poeta de multifacetas temáticas. Trabalhou com o humor modernista, com o catolicismo, com o misticismo, com o onírico, com o insólito e com o surrealismo. Mesmo com as mudanças temáticas, é notório que ele nunca perdeu qualidade em seus escritos. Leia o poema “O Olho da Janela”:

Agora lá se vai a pessoa.
Agora lá se foi a pessoa redonda.
Agora lá se foi.
agora lá se vão.
Nunca mais voltará.
Nunca mais voltarão.
Um dia voltará a pessoa-quadrada?
Um dia voltará a pessoa-redonda?
Um dia voltará, um dia voltarão?
Um dia voltará, um dia voltarão:
A pé ou de avião um dia voltarão.
Um dia voltará a pessoa quadrada,
Um dia voltará a pessoa redonda:
No dia do juízo, a pé ou de avião

3 SOLANO TRINDADE – Escritor que exaltou a cultura africana enraizada na identidade brasileira. Seus escritos clamam pelo deseja da cultura negra, pelos direitos do negro no Brasil. Leia“Tem gente morrendo, Ana”:

Tem gente morrendo
No seco Nordeste
Tem gente morrendo
Nas secas estradas
Tem gente morrendo
De fome e de sede
Tem gente morrendo
Ana
Tem gente morrendo
Tem gente morrendo
De angústia e de medo
Tem gente morrendo
De falta de amor
Tem gente morrendo
De dor e ódio
Tem gente morrendo
Ana
Tem gente morrendo
Tem gente morrendo
Nos campos de guerra
Tem gente morrendo
Nos campos de paz
Tem gente morrendo
De escravidão
Tem gente morrendo
Ana
Tem gente morrendo
Tem gente morrendo
Nas prisões infectas
Tem gente morrendo
Porque quer trabalho
Tem gente morrendo
Pedindo justiça
Tem gente morrendo
Ana
Tem gente morrendo
Sim Ana
Tem gente morrendo

2 PAULO LEMINSKI- Nosso judoca e hippie favorito! Leminski foi um dos escritores mais versáteis da nossa literatura: foi poeta, romancista, tradutor, compositor, biógrafo e ensaísta. Detalhe: nós tratamos sobre esse querido no quadro “Dica da Semana“. Leia o poema "nascemos em poemas diversos":

nascemos em poemas diversos
destino quis que a gente se achasse
na mesma estrofe e na mesma classe
no mesmo verso e na mesma frase
rima à primeira vista nos vimos
trocamos nossos sinônimos
olhares não mais anônimos
nesta altura da leitura
nas mesmas pistas
mistas a minha a tua a nossa linha

1 CAROLINA MARIA DE JESUS – Um exemplo de mulher que foi a voz daqueles que não eram ouvidos. Moradora da favela do Canindé, ficou reconhecida em 1958, quando o jornalista Audálio Dantas teve contato com seus escritos. Infelizmente, atualmente, as obras de Carolina Maria de Jesus ficaram restrito às universidades. Mesmo que ela seja mais reconhecida pela prosa, seus poemas são fundamentais para a literatura brasileira. Leia o poema “O colono e o fazendeiro”:

Diz o brasileiro
Que acabou a escravidão
Mas o colono sua o ano Inteiro
E nunca tem um tostão
Se o colono está doente
É preciso trabalhar
Luta o pobre no Sol quente
E nada tem para guardar
Cinco da madrugada
Toca o fiscal a corneta
Despertando o camarada
Para colheita
Chega à roça ao Sol nascer
Cada um na sua linha
Suando para comer
Só feijão com farinha
Nunca pode melhorar
Esta negra situação
Carne não pode comprar
Para não dever ao patrão
Fazendeiro ao fim do mês
Dá um vale de cem mil réis
Artigo que custa seis
Vende ao colono por dez
Colono não tem futuro
E trabalha todo dia
O pobre não tem seguro
E nem aposentadoria
Ele perde a mocidade
A vida inteira no mato
E não tem sociedade
Onde está o seu sindicato
Ele passa o ano inteiro
Trabalhando. Que grandeza.
Enriquece o fazendeiro
E termina na pobreza
Se o fazendeiro falar
Não fique na minha fazenda
Colono tem que mudar
pois não há quem o defenda
O colono quer estudar
Admira a sapiência do patrão
Mas é um escravo, tem que estacionar
não pode dar margem à vocação
Trabalha o ano inteiro
E no Natal não tem abono
Percebi que o fazendeiro
Não dá valor ao colono.
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