Os amantes de literatura dificilmente vão dizer que nunca foram ao sebo. Na realidade, não precisa ser um fascinado por tal arte/ciência, porque quando há necessidade de comprar algum livro, certamente, o sebo vai auxiliar os leigos.
Descrevendo o cenário do mesmo, pode-se afirmar que, geralmente, é regido por tais características: estantes de madeira, livros separados por literatura estrangeira ou brasileira, por gêneros literários, e, logicamente, por ordem alfabética, sem falar do teor rústico, da poeira acolhedora e "sinestesicamente" do delicioso cheiro de velharia. Não é a pretensão de se realizar uma minuciosa análise do cenário, como é feito nas obras de Eça de Queirós, mas quem frequenta esse tipo de estabelecimento sabe o quão é esplendoroso.
Há várias definições para o termo “sebo”, que carregam observações dicotômicas. Vamos refletir sobre quatro:
1) Antes da criação da iluminação elétrica, a leitura era auxiliada pelo uso da vela de onde escorria o sebo nos livros, tornando-os ensebados.
2) Deriva-se das iniciais do termo “SEconds hands BOoks”, o qual designa livros de segunda mão;
3) A terceira, na questão etimológica, vem de “sebenta”, que, em Portugal, é sinônimo de apostila, caderno de apontamentos das lições dadas em sala de aula;
4) Esse termo teria relação com o fato do livro ser manuseado constantemente, o deixa engordurado e “ensebado”.
A primeira, é improvável pelo fato que a eletricidade surgiu antes da criação do sebo (este no século XX e esse é discutido, desde a Grécia antiga, pelo filósofo Tales de Mileto e sendo aperfeiçoada por vários cientistas, como Otto von Guericke – máquina geradora de cargas elétricas-, Benjamin Franklin – pararraios-, Alessandro Volta- a pilha elétrica-, Michael Faraday – os geradores de energia e Thomas Edison – a lâmpada). Na questão do termo em inglês, é ilógico, pois “sebo” é de origem brasileira. No caso da terceira, como na segunda, é equivocado, pois além de ser um termo brasileiro, a apostila não é item característico de tal comércio. Assim, a quarta definição é mais satisfatória, pois realmente quanto mais manusearmos o livro, mais sujo e “ensebado” ele fica.
Na visão histórica, o sebo surge no Brasil no século XIX e se confunde com história da livraria em nosso país. A grosso modo, as duas trabalhavam na seguinte forma: a livraria era destinada às novidades do campo editorial e os sebos para os livros usados e antigos. Essa função não mudou muito atualmente, mas, nas livrarias, encontramos livros antigos (em edições novas, logicamente).
Além da questão de ter livros usados, podemos encontrar, nesse espaço, livros e publicações raras, obras com autógrafo do autor, deixando, assim, os mesmos com altos valores, podendo ser mais caros do que a edição mais recente.
Na questão das raridades e livros caros temos, infelizmente, o roubo e/ou tráfico de livros. Os ladrões de livros (que não pode realizar o elo com a obra A menina que roubava livros, de Markus Zusak) atuam, também, com roubos de obras de arte, saqueadas em sítios arqueológicos e são ligados aos negociantes de falsificações. Eles também se proliferam em editoras e gráficas, realizando saqueadas de livros caros e as comercializam como livros “semi usados” e podem aparecer em sebos.
Retornando ao esmero ambiente do sebo, não podemos deixar de mencionar o pioneiro e incrível trabalho do professor, poeta, ensaísta e crítico literário Antônio Carlos Secchin ao criar o Guia dos sebos, que atualmente é publicado pela Lexicom, com os principais sebos de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e de outras cidades de grande porte. Com a criação do site Estante Virtual, tal obra é pouca adquirida, mas a mesma é indiscutivelmente importante para entendermos o quão é primoroso o sebo em nosso país.
Aprofundando sobre o site Estante Virtual, podemos dizer que ele funciona como uma “vitrine” para os sebos de todos os estados. A partir da pesquisa de título, autor, editora e descrição, somos direcionados ao catálogo do que foi pesquisado para comprarmos o tal produto. Além da pesquisa, conseguimos segregar a escolha do produto por relevância: do tipo (usado ou seminovo), do preço, do frete, data que foi adicionado ao catálogo, ano de publicação, vendedor, cidade, editora e assunto. A compra do produto é realizada no próprio site, mas a responsabilidade da conservação e envio do mesmo é do vendedor.
Fisicamente ou virtualmente, os sebos são de supra importância para a cultura de nosso país. Não podemos encará-los apenas como uma livraria de livros usados ou raros, mas como local que ampara a cultura, o entendimento, o conhecimento das variadas ciências, além de contribuir ao processo identitário das pessoas. Mesmo com preconceito das pessoas em encará-los como “local de coisa velha e mal conversava”, eles são resilientes e mostram que é um mercado consolidado e atrativo.
SEBO: O ÊXODO CULTURAL BRASILEIRO
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