Carta: um gênero textual, meio de comunicação e forma de expressar sentimentos. Pessoas de gerações anteriores a utilizavam nessas formas e havia um teor “humano”, pois a recebíamos, geralmente, com a caligrafia correspondente do emissor. Vinculando ao senso comum, o envio destas entrou em colapso, pelo fato da agilidade de enviar mensagens, via cibercultura, e pela rotina exaustiva das pessoas.
Hodiernamente, receber cartas -em exceção de cobranças e boletos- é algo único, majestoso e inigualável, porque sabemos que a pessoa que a enviou destinou um espaço de tempo para redigi-la. Se voltarmos às décadas de 1980,1990 e início dos anos 2000, receber e enviar cartas era uma prática social normal- principalmente na questão de demonstrar afetividade pelo outro- e, assim, também era comum às pessoas guardarem cartas recebidas em caixas de presente no guarda-roupa.
Além da questão do amor, nessas décadas, enviar cartas para os ídolos e/ou para participar de alguma promoção era algo comum -na realidade isso ocorre, atualmente, de forma amena. Quem nunca enviou uma carta para os ícones infantis, como a Xuxa, a Eliana, a Angélica e a Mara Maravilha? Se não enviou, com certeza estava declinado para tal ato, mas não houve condições de esmerar isso. Com tantas discussões sobre a carta, como que tal se organiza?
Esse gênero textual nasce na linguagem verbal escrita, na qual o emissor e receptor comutam em uma relação assíncrona: não precisam estar juntos num mesmo fluxo dialógico. Geralmente, o mesmo é enviado por via Correios e/ou Fedex, onde não chegará ao receptor, de forma tão ágil, como os envios de e-mail. O gênero textual-carta tem a seguinte estrutura:
1- Cabeçalho: dia, mês e ano;
2- Vocativo: invocar e/ou saudar a pessoa que receberá a carta, que pode ser um tratamento formal até uma saudação que denota intimidade;
3- Desenvolvimento: a mensagem do texto;
4 - Despedida e assinatura do remetente.
Estruturalmente, tal gênero é simples, mas quando pensamos na mensagem que é destinada, ocorrem grandes problemas. Vamos voltar na questão da afetividade, assim, lanço o seguinte questionamento: às pessoas escrevem cartas transpondo o que sentem? Muitos, vão dizer que sim, pois contém a caligrafia da mesma, porém como podemos saber que a mensagem coaduna com a realidade? Acredito que ficamos com tal dúvida e – logicamente- é impossível ter certeza, ou seja, a incógnita é a maior inimiga.
Essa incógnita está no âmago do emissor e também do receptor. Ora, da mesma forma que não sabemos se o emissor transmite os seus sentimentos através das palavras, logo não sabemos o que o receptor sentiu ao lê-la. Piorando os tais questionamentos, quem nunca sofreu por uma desilusão amorosa?
A pergunta que realizei acima é quase retórica, pois, dificilmente, vamos encontrar pessoas que tiveram sorte no amor, desde seu primeiro. Para os sofredores-e me incluo nessa- o que piora a dor e sofrimento de tais desilusões são as mensagens enviadas no período da paixão, que nos fazia se sentir bem, vivos, apaixonados, especiais e com autoestima elevada. É um período agradável, posso dizer, mas quando acaba, torna-se um tormento.
Cartas que compartilhamos tais momentos podem ser a maior fonte de sofrimento-quando o amor acaba-, pois são elementos chave para retornarmos aos bons momentos, que terminaram e viraram pó. Se as mesmas trazem malefícios ao nosso âmago, porque as guardamos? Esses momentos não vão voltar, não vai ter um déjà-vu e guardá-las realizaremos atos de sadomasoquismo emocional.
Está na hora de tirar a caixa de presentes do guarda-roupa e juntar às de desilusões amorosas, e rasgá-las. Isso mesmo, rasgá-las! Não podemos nos corroer por elementos que nos transpõe a tristeza e que acabem com a nossa autoestima. Rasgar cartas é se libertar, é ser pleno e conseguir dar novas chances para que o mundo possa oferecer. Devemos sair desse casulo e nos amadurecermos para novas oportunidades.
Por uma questão de saúde pública, rasguem às cartas!
RASGUE ÀS CARTAS
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