Conhece o Brasil? Parece óbvio esse questionamento, pelo fato que os leitores desta matéria, em sua maioria, são brasileiros, mas, com toda gentileza, solicito que retome ao mesmo.
Após reflexões, conhece o Brasil? Certeza que disse que sim, mas, ao mesmo tempo, ficou em dúvida se o que conhece é da cultura brasileira ou é advinda de outro país. Se ficou com tal dúvida é que está na hora de redescobrir o Brasil e o brasileiro.
A questão do “redescobrimento” não é inédita, principalmente, na literatura. A primeira geração do Romantismo, chamada indianismo ou nacionalismo, tinha a intenção de cultuar o passado brasileiro- o índio- como podemos perceber no índio viril e bondoso no poema épico Juca Pirama, de Gonçalves Dias e na virgem dos “lábios de mel” no romance Iracema, de José de Alencar. Logo, a primeira geração do Modernismo do Brasil, enraizado na Semana de Arte Moderna de 1922, tinha o foco em cultuar o Brasil e parar de copiar a estrangeira –mas podendo a assimilar com a nossa-. Essa questão pode ser conferida, principalmente, no Manifesto do Antropofágico, de Oswald de Andrade, em 1928.
Claramente, tal questão está ligado ao não estrangeirismo e o patriotismo. No que concerne o patriotismo, pode ser exemplificado na obra de Lima Barreto, O triste fim de Policarpo Quaresma, a qual o protagonista -Policarpo Quaresma- era visto como estranho pelo fato que cultuava a pátria brasileira, e no caso do estrangeirismo- cultuar a nacionalidade e negar a cultura que vem de fora- pode ser observado na célebre frase do escritor de O auto da compadecida, Ariano Suassuna: “não troco o meu oxente pelo ok de ninguém”.
Outra arte que discutiu fortemente o que foi supracitado, é a música. Música, como qualquer manifestação artística, reflete e indaga sobre os problemas e as mudanças sociais que ocorrem no mundo. Milton Nascimento, em sua esplêndida canção, Notícias do Brasil, discorre sobre a importância de nos valorizarmos como cidadãos brasileiros: “Aqui vive um povo que merece mais respeito/ Sabe, belo é o povo como é belo todo amor / Aqui vive um povo que é mar e que é rio/ E seu destino é um dia se juntar/ O canto mais belo será sempre mais sincero/ Sabe, tudo quanto é belo será sempre de espantar/ Aqui vive um povo que cultiva a qualidade/ Ser mais sábio que quem o quer governar”. Além de Milton Nascimento, podemos exemplificar o orgulho de ser brasileiro e preferir a respectiva cultura com a música Não tem tradução, de Noel Rosa: “Mais tarde o malandro deixou de sambar, dando pinote/ Na gafieira dançar o Foxtrote/ Essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição/ Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês”. Esse orgulho da identidade cultural, não é apenas cantando nesse samba tradicional de Noel Rosa, mas é um tema contemporâneo, como pode ser observado na música Povo brasileiro, da banda Natiruts: “Não venda sua identidade cultural/ Esse é o maior tesouro que um país pode ter”.
Coadunando com o trecho de música de Natiruts, é necessário discutir o redescobrimento do Brasil e de seu respectivo povo numa visão crítica social. Brasil, que já foi chamado de Pindorama e Vera Cruz, é uma incrível miscigenação de várias culturas, nas quais seu povo deve ter orgulho, mas, infelizmente, isso não ocorre. Esse não orgulho eclodiu com a pós-modernidade- a chamada Modernidade líquida, por Bauman-, pois as culturas estrangeiras adentraram em nosso âmbito, tornando-as mais interessantes ao olhar da maioria. Basicamente, podemos observar tal processo com o seguinte provérbio: “a grama do vizinho é a sempre mais verde”, assim, a cultura brasileira tornou-se marginalizada.
Para muitos, esse processo é denominado de pluriculturalismo, mas como pode ser pluri se enaltece as culturas estrangeiras e descarta a brasileira? Temos que ter em mente que onde nascemos e vivemos faz parte no nosso processo identitário, logo, a precisamos para nos conhecer.
A busca pelo redescobrimento também vem com sede de melhorar o nosso país. Não é fácil acreditar no mesmo com tantos escândalos de corrupção, barbáries contra a minoria e problemas sociais graves, como a educação falha, péssima saúde, segurança jocosa e mobilidade urbana deprimente. Mesmo com todos os problemas precisamos lutar por um país melhor, mais justo e favorável ao povo que o habita.
A questão é que não devemos negar o estrangeirismo, mas assimilar o que é benéfico e cultuar o Brasil. Redescobrir o Brasil e o brasileiro é uma medida urgente que necessita ser realizado para termos o país que queremos.
REDESCOBRIR O BRASIL E O BRASILEIRO
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